sexta-feira, 5 de junho de 2009

Costa Rica Pura Vida, por Rafinha


Estamos a mais de um mês velejando, ou seja, morando em uma casa flutuante, nosso endereço é o mar e nosso quintal de casa são as maravilhas que estamos tendo a oportunidade de conhecer. O habitat no meio aquático se tornou um modo de vida, um estilo de viver que significa estar em contato direto com a natureza, e cada vez mais, venho descobrindo em mim que posso ter o mar como meu habitat. Logo de início os hábitos mudam, o sol vem na gaiúta e te acorda bem cedo...a gaiúta se torna um quadro na parede do quarto em que todos os dias a paisagem muda...um dia é uma ilha com grandes árvores, no outro dia a paisagem é uma praia de areia branca com coqueiros...se vendesse este tipo de quadro nas lojas de decoração, seria um sucesso! ... O café da manhã tem que ser reforçado, eu diria que sem ele o dia não começa. Da mesma forma que o barco é nossa casa, é também nosso meio de transporte, então é primordial saber como ele funciona, e graças à paciência do Capitão e também do Mané, hoje eu posso dizer que sei um pouco como ele funciona. Todo dia fazíamos uma espécie de treino...o “Capitão” dizia:
--- Então Capitã, vamos velejar, ligue o motor e decida para onde vamos, se precisar de ajuda nas velas pode pedir !
Desde modo, eu tinha que fazer tudo sozinha, desde ligar os equipamentos, ligar o motor, decidir o rumo, colocar as velas e sair navegando!
As vezes eu ficava alguns minutos pensando antes de fazer alguma coisa, e o Mane era proibido de dizer um “a”, ele tinha que ser mudo, não podia me ajudar em nada!
Foi na prática que funcionou, e também na pressão! Hehehehe
Como tudo na vida deve ter equilíbrio, depois de dois dias velejando já sentíamos vontade de descer em terra, poder conhecer de fato os lugares paradisíacos em que somente víamos de longe. Assim a nossa vida a bordo também incluía voltinhas no pueblo, compras no supermarket, cervejinhas no bar, trilhas na mata, banho de cachoeira, um café no cybercafé...fazer amizade e conhecer a cultura local, e se alguém perguntasse: o que vocês fazem, no que trabalham?
Responderíamos: Atualmente somos “viajantes” !
Sermos viajantes hoje, foi uma decisão na qual não me arrependo, largar emprego, família e minha confortável vida pode parecer difícil, mas a verdade é que encaro esta expedição América Central como uma experiência de vida e estar aqui hoje me dá uma sensação de conquista.
Até agora foram cinco países visitados, difícil de dizer qual o mais bonito, difícil de dizer qual o melhor, cada um com suas singularidades, mas a verdade é que quanto mais ao sul, mais paraísos perdidos.
Costa Rica realmente é fantástica, iniciamos com uma paisagem atípica, montanhas de rochas alaranjadas, sem nenhum tipo de vegetação, parecia um deserto no meio do oceano, o vento intensificou chegando a 32 nós, tivemos que baixar as velas, afim de evitar estragos.
Assim que passamos as tais montanhas alaranjadas, chegamos em um secret point , Olleis Point, boas ondas para surfar, lá só pode chegar pelo mar e já tinha um barco especializado em surf trip, era o sonho do Mane surfar neste local que aparece no filme de surf “ Endless Summer II “. Ancoramos e levamos o Mane até o point, ficamos no dingue eu e Minie tirando fotos, o surf não foi muito longo, mais o suficiente para deixar o Mané com o sorriso na orelha!
Depois seguimos para outro pico de surf, Roca Bruja, lindíssimo..., uma rocha gigante e espetacular no meio da baía, a rocha simplesmente fazia o lugar ser o lugar. Mane e Cameron foram surfar, desta vez fiquei no barco coloquei um som à moda brasileira e curti um momento alone.
No mesmo dia, enfim ancoramos em Playa de Coco, primeira cidade ao norte da Costa Rica, chegamos no exato momento do pôr do sol, deixando ainda mais maravilhoso o lugar. Nossa estadia em Playa de Coco foi movimentada, fizemos a entrada no país, andamos pelo pueblo, fizemos compras e tomamos cerveja num bar com uma turma de havaianos que estavam a bordo de um veleiro de 70 pés, jantamos no restaurante...uhm...o feijão começava a ser um pouco parecido com o nosso brasileiro.
Depois de dois dias zarpamos para Tamarindo, uma cidade que respira surf, surf para principiantes, muito mais mulheres surfando do que homens, entendi o porque tanto o Cameron queria parar nesta cidade. Nossa estadia foi ótima, passamos uma tarde inteira num bar que tinha internet e de frente para o mar, água azul clarinha...aproveitamos muito!
Rumo à Baía Sâmara, e se o mar do México não estava pra peixe, este estava!
Pegamos uma bela barracuda, ia da cabeça aos joelhos do Mane, sério!! Eu não estou brincando!! A noite do sushi estava prometida, ancoramos em baía Sâmara em frente à uma ilha que tinha uma prainha com areia branca, pa ra di si a co !!! Degustando um maravilhoso sushi feito pelo meu maridão !!!
Acordamos cedo, tínhamos muitas milhas para fazer até chegar na próxima baía, então decidimos zarpar com o sol nascendo, pra chegar a tempo em Baía Ballena, antes do sol se pôr.
Inacreditável como existe cada cantinho, cada baía, cada lugar que a gente não faz idéia que existe, dava com tranqüilidade de passar 1 semana em cada lugar destes...em cada um que ancorávamos eu dizia:
---- Não! Este é o mais bonito de todos!!!
E esta frase ia se repentindo baía por baía.
Chegamos em baía Ballena, linnndoooo...dava até pra dizer que estávamos no fim do mundo, pra chegar lá de carro era bem mais difícil do que de barco. Dormimos duas noites, e conhecemos o pueblo, chamado Tambor, que se resumia em uma vila de pescadores com uma vendinha, tinha um telefone público e para a nossa felicidade ele funcionava, conseguimos mandar notícias, que estávamos no fim do mundo, mas estava tudo bem...
Acordamos, tomamos um banho de mar e zarpamos para Isla Tortuga, daí o queixo começou a cair de vez...era realmente de babar de lindo que era, ancoramos na frente da Isla e nadamos até ela. Lá, o queixo caiu no chão, ficamos maravilhados com a beleza do lugar, tinha uma certa estrutura...e muitas pessoas que vinham do continente (Puntarenas) com um barco para passar o domingo.
Tivemos que deixar Islã Tortuga, encontramos uma baía bem protegida para dormir, tivemos uma noite de sonhos e na manhã seguinte zarpamos para Puntarenas.
Puntarenas é uma cidade portuária, não muito agradável, mas um lugar que tinha algum tipo de estrutura, como supermercados e uma marina que nos deu apoio durante três dias. Como já estávamos muitos dias velejando, aproveitamos para fazer a manutenção de alguns equipamentos, usamos internet e deixamos tudo acertado para zarparmos para o sul da Costa Rica.
Saímos de Puntarenas às nove horas da manhã, no pico da maré alta, pois a saída se dava num canal muito estreito e pouco profundo, todo cuidado era pouco, não podíamos encalhar este veleiro gigante.
Zarpamos para Herradura, chegamos ainda era claro, eu Mane pegamos o dingue e fomos conhecer o pueblo, lindoooo...paradisíaco, tomamos uma coca cola e caminhamos na praia, na volta resolvemos entrar com o dingue numa marina chiquérrima que se chama Marina Del Sueños, com este nome não preciso dizer que a marina era alto padrão, tiramos fotos sem ninguém perceber e voltamos rapidinho para nosso veleiro. Na baía estavam ancorados alguns veleiros, e uma coisa que acontece é que quando chegamos numa baía logo outros cruzeiristas de outros veleiros vem com seu dingue cumprimentar e trocar informações, é assim em todos os lugares, assim vai se fazendo amizade e colhendo informações sobre boas ancoragens e comportamento do mar. O interessante é saber da história de cada um, de onde vieram, como compraram o barco, onde já foram...sempre acabamos reencontrando-os em outros lugares e é sempre uma felicidade. Naquela noite veio um senhor de mais ou menos quarenta e cinco anos, ele estava esperando sua esposa que vinha de avião para seguir com ele de veleiro ao norte, o interessante é que ele passou todos os points de surf e ancoragens no sul da Costa Rica.
Dormimos e novamente acordamos bem cedo para zarpar, tínhamos outra perna longa.
O dia era quente, muito quente...chegou umas duas da tarde e o céu começou a ficar cinzento, tínhamos uma tempestade que vinha de proa, tivemos que parar e raciocinar o que faríamos...encarar aquela tempestade não estava no nosso script.
Resolvemos seguir mais um pouco pra ver se o vento iria mudar, pois conforme a direção do vento é que tomaríamos uma decisão. O vento mudou e trazia a tempestade para nós, mudamos de rumo, abrimos mais, afim de escapar dela...mas ela juntou com outra nuvem e começou novamente vir para nós, decidimos seguir para costa, tinha uma baía chamada Dominical onde poderíamos nos proteger. Mas outra nuvem carregada que vinha detrás do morro parou exatamente em cima de Dominical, resolvemos então voltar para Herradura, depois de trinta minutos a nuvem que estava em cima de Dominical começou a se mover para Herradura, exatamente para onde estávamos indo...então mudamos novamente de rumo e seguimos para Dominical, seguros e com o céu inundado de uma combinação de nuvens laranjas e rosas, ancoramos em frente a árvore verde da ilha, conforme o senhor cruzeirista de Herradura da noite passada havia nos instruído, entendemos o porque árvore verde, era uma ilha de rochas e o único verde era a árvore.
Mais um paraíso perdido...Dominical, não podíamos descer em terra, tínhamos que seguir viagem rumo à Puerto Jimenez.
Puerto Jimenez, uma cidade voltada ou turista, várias agências de turismo oferecendo inúmeros passeios, eu e Mané pegamos um táxi e fomos conhecer Cabo Mata Palo, tínhamos passado por ele de veleiro no dia anterior, mas só ficamos babando de longe, imaginando como seria demais pisar naquele paraíso perdido!
E lá estávamos nós, fizemos uma trilha no meio de uma reserva biológica, tomamos banho de cachoeira e conhecemos uma das praias mais lindas que já fomos. Foi realmente um dia especial, depois de tanto mar, foi bom relembrar que o mundo da selva também existe!
Tinha também vez para o surf, fomos para Pavones que é perto de Puerto Jimenez como uma hora velejando, ancoramos e fomos de dingue para o point. O Mane entrou na água e o Cameron achou que estava muito crowd, eu fiquei no dingue com a câmara pronta para as filmagens...realmente era uma onda atrás da outra sem parar, para o meu ver...ondas perfeitas e longas. O Mane conseguiu pegar algumas...achei que seria impossível...a fila era grande, apelidamos de Crowdavones, de tanta gente na água, coisa inacreditável.
Era segunda feira, saímos de Puerto jimenez rumo à Golfito, a última cidade da Costa Rica. Ficamos numa marina bem agradável, o nome era Banana’s Bay e era toda pintada de amarelo banana, no mínimo engraçado.
Usamos internet, fomos ao super, aproveitamos a marina, fizemos a saída do país e deixamos o veleiro todo certinho para seguir rumo à Panamá.
Golfito me encantou, uma cidadezinha bem singular, encrustrada no meio de montanhas verdes, lindas...parecia que estávamos no meio da Costa da Lagoa em Florianópolis, só que os morros eram bem mais altos. Outro lugar para voltar e ficar no mínimo uma semana.
Em Costa Rica todo mundo se cumprimenta:
--- Pura vida!
Só estando aqui para entender o sentido da pura vida!!

Abraços e rumo à Panamá!!

Obs: Feliz Aniversário Papi !! Eu te Amo.

5 comentários:

Flavinha disse...

Uau! Sabes como eu adoooro ler neh? Especialmente ficção/romances históricos, onde a gente acompanha os hábitos, as descobertas e uma época da história onde os personagens acabam sendo tão íntimos que o livro toma vida na nossa cabeça!

Aqui é exatamente isso, com a maravilhosa diferença de eu conhecer os personagens, de verdade! :D

As histórias, as descobertas, as decisões que vcs têm que tomar, são muito fascinantes de acompanhar! É ler um livro muito especial, torcendo e saboreando cada lugarzinho junto! Por conhecê-los tão bem a gente imagina melhor como que cada coisa que estão passando é emocionante!!!

Rafinha, imagina ser a capitã e decidir sozinha tudo? Não tem preço! Tenho certeza que isso vai se refletir na tua vida da forma mais rica! Pois a responsabilidade, a habilidade de pensar no melhor pra ti e pros outros, a destreza de se acalmar e pensar racionalmente em como as coisas funcionam, nossa, são qualidades excepcionais!

Que bom que tens um capitão que confia em ti e um maridão que te leva nessas oportunidades de vida que poucas pessoas tem a chance de experimentar! Mane e Cameron, vcs são o máximo! :D

Agora Mane, deve ser de balançar o coração realizar o sonhos de surfar em lugares assim não? Especialmente um lugar de difícil acesso e que visse num filme!!! Nossa! Só isso já deve fazer valer tudo!

Casal, vcs são inspiradores!!! Adoro demais essas aventuras!

Bons ventos, boas ondas e lindas paisagens sempre!!! Beijão com saudade!

Rubens disse...

Manuel Alves Ambrósio, vulgo Mané, que antes de ser da Ilha era o Mané da Chácara Graciosa.
Quem me passou o blog foi Dhatri, que tá morando em Montreal/Canadá há quase 2 anos.
Eu há 3 meses to morando em Brasília, casado e com uma filhinha de 3 anos.
Meus pais moram no prédio ainda e que muitos amigos da nossa infância ainda anda por lá.

Foi realmente emocionante ver onde vc está e oq está fazendo, privilégio de poucos.

Parabéns Mané, tu é foda!!!
Saudades do amigo,

Binho

Turtle disse...

Essa é minha "cumpadra" ta velejando e escrevendo bem pá caramba... isso ai casal... manda ver pelo pacifico que eu fico aqui pelo atlântico, em breve churrasquinho em Floripa... Grande Abraço, Bons Ventos. Turtle.

Papi disse...

Que bom, mesmo vivendo um momento super especial em sua vida,não deixou de lembrar desse paizâo,nesta data de tamanha magnitude.
Gostei de viver momentos empolgantes através dos relatos tão bem escritos. Me sentia navegando com vocês.
Que anjos os protejam nessa espetacular aventura.
Estou com muitas saudades.

Mil beijos

Papi

Eduardo(Farinha) disse...

Dálhe Mané e Rafinha

É bom ver que voces estam contentes com essa "aventura",interessante saber que voces estao velejando por ai,mostrando um pedaço desse mundao pra todos nós.
Vocês Merecem.
Abraços e que em breve possamos nos verem novamente.

Abração!